Por Equipe Editorial
Ver a escova ou o fio dental sujo de sangue é uma experiência comum, e muita gente trata o episódio como algo sem importância. Quando o sangramento se repete, porém, ele costuma indicar uma inflamação nos tecidos que sustentam os dentes.
Na maioria das vezes, trata-se da gengivite, a forma inicial da doença periodontal.
O problema é frequente no Brasil. Entre adultos de 35 a 44 anos, 43,8% apresentaram sangramento gengival na Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, o SB Brasil 2023, segundo análise publicada em 2026 na Revista Brasileira de Epidemiologia.
Em 2010, o índice era de 46,5%.
A boa notícia é que a gengivite pode ser controlada com cuidados de higiene e acompanhamento profissional. Quando ignorada, no entanto, ela pode evoluir para quadros mais graves, que comprometem a sustentação dos dentes.
Gengivite é o estágio inicial da doença da gengiva
A gengivite é a inflamação da gengiva. De acordo com a MedlinePlus, serviço de informação em saúde da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, ela é considerada a forma inicial da doença periodontal, grupo de problemas que afeta os tecidos ao redor dos dentes.
O quadro começa com o acúmulo de placa bacteriana, uma película pegajosa formada por bactérias, muco e restos de alimentos que se deposita sobre os dentes. Quando não é removida, a placa endurece e se transforma em tártaro, que irrita e inflama a gengiva.
“Uma das causas mais comuns do sangramento gengival é a inflamação provocada pelo acúmulo de placa bacteriana. Quando a higiene não consegue remover adequadamente essa placa, especialmente na região próxima à gengiva e entre os dentes, pode surgir a gengivite”, afirma a cirurgiã-dentista e periodontista Bruna Keittiane, em declaração divulgada por meio de material de imprensa.
Se a inflamação não for controlada, pode avançar para a periodontite, forma mais grave em que a gengiva se afasta dos dentes e o osso de sustentação é afetado.
Sangramento é o sintoma mais conhecido da gengivite
O sinal mais conhecido é o sangramento durante a escovação, o uso do fio dental ou ao comer alimentos duros. O serviço público de saúde britânico (NHS) e a MedlinePlus descrevem outros sintomas:
- gengiva vermelha ou arroxeada;
- gengiva inchada, sensível ou dolorida;
- aspecto brilhante da gengiva;
- mau hálito;
- gosto ruim na boca.
Segundo Bruna Keittiane, um sangramento isolado pode ter origem em um trauma local, como uma escovação mais forte. A repetição, porém, muda o significado do sinal.
“Quando o sangramento se repete, não deve ser considerado normal”, alerta a periodontista.
A especialista também chama atenção para lesões na gengiva, que podem ter origens diferentes, como trauma, inflamação ou infecção.
“Uma lesão não deve ser tratada apenas com base na aparência. É necessário examinar o paciente e entender há quanto tempo ela está presente, se dói, se cresce, se sangra e se existem outros sinais associados”, diz.
Placa bacteriana é a principal causa
A principal causa da gengivite é a placa bacteriana que não é removida pela escovação e pela limpeza entre os dentes. Alguns fatores, porém, aumentam o risco ou dificultam a higiene.
Segundo a MedlinePlus, estão entre eles a higiene bucal deficiente, a gravidez, o diabetes não controlado, o tabagismo, dentes desalinhados e aparelhos ou próteses mal ajustados. Alguns medicamentos também podem favorecer o problema.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a higiene deficiente e o uso de tabaco como os principais fatores de risco para as doenças periodontais e destaca que o diabetes tem relação de mão dupla com elas.
Bruna Keittiane cita ainda situações locais que favorecem a inflamação, como o acúmulo de tártaro, a dificuldade de higienizar ao redor de aparelhos ortodônticos, próteses e restaurações e o trauma causado por escovação inadequada.
O NHS recomenda que gestantes e pessoas com diabetes tipo 2 façam consultas odontológicas com mais frequência, justamente pelo maior risco de problemas na gengiva.
Gravidez e diabetes pedem atenção à gengiva
A gengivite pode aparecer em qualquer idade. Segundo a MedlinePlus, ela costuma surgir com frequência na puberdade ou no início da vida adulta.
A gravidez é outro momento de atenção. A MedlinePlus inclui a gestação entre os fatores de risco, e o NHS recomenda que gestantes mantenham as consultas odontológicas em dia.
Pessoas com diabetes também merecem cuidado especial. A OMS destaca que a relação entre diabetes e doença periodontal funciona nos dois sentidos: uma condição pode agravar a outra.
Em crianças, o sangramento da gengiva também é motivo para levar ao dentista, segundo o NHS.
Gengiva sangra em 43,8% dos adultos de 35 a 44 anos
Os dados mais recentes vêm do SB Brasil 2023, conduzido pelo Ministério da Saúde. Uma análise comparativa publicada na Revista Brasileira de Epidemiologia, em 2026, examinou os resultados entre adultos de 35 a 44 anos.
Em 2023, 43,8% desse grupo tinham sangramento gengival, índice considerado estável em relação a 2010, quando era de 46,5%. O tártaro aparecia em 55,9% dos adultos, abaixo dos 65,7% registrados em 2010.
As bolsas periodontais rasas, sinal de doença mais avançada, caíram de 27,9% para 13,4%, e as profundas passaram de 7,3% para 4,2%.
Os autores classificam os avanços como modestos e apontam desigualdades. Homens tiveram mais chance de apresentar tártaro e bolsas periodontais, e adultos pretos tiveram mais chance de sangramento gengival do que adultos brancos.
A escolaridade maior esteve associada a menos bolsas profundas.
Um estudo anterior, publicado em 2013 na Revista de Saúde Pública com dados do SB Brasil 2010, havia identificado doença periodontal moderada a grave em 15,3% dos adultos de 35 a 44 anos e a forma grave em 5,8%.
Os pesquisadores associaram o problema a menor renda familiar, menor escolaridade e maior desigualdade de renda nos municípios.
No cenário internacional, a OMS estima mais de 1 bilhão de casos de doença periodontal grave no mundo.
Tratamento da gengivite começa com limpeza profissional
O tratamento da gengivite começa no consultório. Segundo a MedlinePlus, o dentista ou o técnico em saúde bucal remove a placa e o tártaro, e o paciente passa a reforçar a higiene em casa.
Também podem ser indicados enxaguantes antibacterianos, correção de dentes desalinhados e troca de aparelhos ou próteses que machucam a gengiva.
A MedlinePlus informa que o sangramento e a sensibilidade costumam diminuir entre uma e duas semanas após a limpeza profissional e a melhora da higiene. A gengivite, porém, pode voltar ou se prolongar, o que exige cuidado contínuo.
Para o NHS, nos estágios iniciais o tratamento envolve melhorar a limpeza, usar escovas interdentais, parar de fumar e fazer limpeza profissional. Em casos mais graves, que já indicam periodontite, podem ser necessários limpeza profunda abaixo da gengiva, antibióticos, extração de dentes ou cirurgia.
A avaliação profissional segue etapas. “O primeiro passo é uma boa anamnese, ou seja, entender o histórico do paciente, quando o problema começou, se há dor, sangramento espontâneo, alterações recentes, doenças sistêmicas, uso de medicamentos e outros fatores relevantes”, explica Bruna Keittiane.
Em seguida, segundo ela, vêm o exame clínico dentro e fora da boca e, quando necessário, radiografias. Na análise da gengiva, o profissional observa a presença de inflamação, placa, tártaro, retrações, sangramento e mobilidade dos dentes, além da condição dos tecidos ao redor deles.
É essa avaliação que diferencia a gengivite de quadros mais avançados e define o tratamento.
Escovação e fio dental sustentam o tratamento em casa
O tratamento da gengivite depende, em grande parte, da rotina diária. As recomendações da OMS e do NHS incluem:
- escovar os dentes ao menos duas vezes por dia com creme dental com flúor, na concentração de 1.000 a 1.500 ppm indicada pela OMS;
- cuspir o excesso de creme dental sem enxaguar a boca logo depois;
- evitar enxaguante bucal logo após a escovação;
- limpar entre os dentes diariamente, com fio dental ou escova interdental;
- não fumar;
- manter consultas regulares com o dentista.
A OMS também recomenda uma alimentação equilibrada, com pouco açúcar livre e muitas frutas e verduras, além da redução do consumo de álcool.
A MedlinePlus sugere limpezas profissionais ao menos a cada seis meses e, em casos mais graves, com maior frequência, conforme orientação do dentista.
Gengivite regride, mas pode voltar
Nos estágios iniciais, a gengivite responde bem ao tratamento. A MedlinePlus informa que o sangramento e a sensibilidade costumam diminuir em uma a duas semanas quando a placa e o tártaro são removidos e a higiene em casa é reforçada.
O controle, porém, não é definitivo. A mesma fonte alerta que a gengivite pode voltar, o que exige cuidado contínuo.
Por isso, a recomendação é manter a escovação, a limpeza entre os dentes e as consultas periódicas mesmo depois que o sangramento desaparece.
Já a periodontite, fase mais avançada, envolve perda de suporte dos dentes e pode exigir limpeza profunda abaixo da gengiva, antibióticos e, em alguns casos, cirurgia, segundo o NHS.
Sem cuidado, a inflamação pode levar à perda de dentes
Tratar o sangramento como algo corriqueiro permite que a inflamação avance. “O principal problema é permitir que uma doença inicialmente mais simples continue evoluindo”, afirma Bruna Keittiane.
Segundo a periodontista, a progressão da doença periodontal pode levar a retração da gengiva, perda de suporte ao redor dos dentes e, em situações mais avançadas, mobilidade e comprometimento dos dentes. Infecções periodontais podem ainda formar abscessos, que costumam exigir atendimento de urgência.
O NHS lista entre as complicações o mau hálito persistente, a retração da gengiva, dentes moles ou que caem e o abscesso dentário.
A OMS lembra que, nos casos graves, a gengiva e o osso que sustentam os dentes se afastam, o que pode levar à perda dentária.
A MedlinePlus acrescenta entre as possíveis complicações as infecções e abscessos na gengiva ou no osso da mandíbula e a gengivite ulcerativa necrosante, forma grave e dolorosa de infecção da gengiva.
Gengiva inchada e dente mole pedem consulta rápida
O NHS orienta marcar consulta quando houver gengiva sangrando, dolorida ou inchada, mau hálito ou sangramento na gengiva de uma criança. O serviço britânico também recomenda consulta para quem está há dois anos sem ir ao dentista, ou há um ano, no caso de menores de 18 anos.
O atendimento deve ser mais rápido quando a gengiva está muito dolorida ou inchada e há dentes moles, ou quando aparecem feridas, manchas vermelhas ou caroços na boca ou nos lábios.
No Brasil, a avaliação pode começar pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Em maio de 2023, foi sancionada a lei que incluiu a Política Nacional de Saúde Bucal, conhecida como Brasil Sorridente, na Lei Orgânica da Saúde, com previsão de acesso universal e contínuo aos serviços.
Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), o atendimento odontológico é oferecido em Unidades Básicas de Saúde, Unidades de Saúde da Família, unidades móveis, Centros de Especialidades Odontológicas e hospitais.
Inquéritos não substituem o diagnóstico individual
Os inquéritos nacionais mostram a frequência de sinais como sangramento, tártaro e bolsas periodontais, mas não substituem o diagnóstico individual. A análise de 2026 não mediu periodontite grave e, por ser baseada em pesquisas feitas em momentos diferentes, não permite afirmar causas para as mudanças observadas.
O número global da OMS é uma estimativa, e a própria organização não informa no documento consultado o ano de referência.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com dentista ou outro profissional de saúde. Em caso de sangramento frequente ou alterações na gengiva, procure avaliação.
Fontes
- Silva et al. Advances and challenges in periodontal disease inequalities in Brazil, 2010-2023. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2026: sangramento, tártaro e bolsas em adultos de 35 a 44 anos no SB Brasil 2010 e 2023; desigualdades
- Vettore, Marques e Peres. Desigualdades sociais e doença periodontal no estudo SBBrasil 2010. Revista de Saúde Pública, 2013: 15,3% moderada a grave e 5,8% grave; fatores associados
- OMS: Oral health (ficha de 17/03/2025): mais de 1 bilhão de casos graves, fatores de risco, flúor de 1.000 a 1.500 ppm, alimentação
- NHS: Gum disease: sintomas, complicações, tratamento, autocuidado e quando procurar o dentista
- MedlinePlus: Gingivitis: definição, fatores de risco, tratamento, prazo de melhora, recorrência e complicações
- Conass: lei que inclui a saúde bucal na Lei Orgânica da Saúde (maio de 2023): acesso universal e locais de atendimento no SUS
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